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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Buenos (y Belos) Aires

 Estátua equestre de Manuel Belgrano, em frente à Casa Rosada.
Uma capital distinta por suas avenidas largas e arquitetura de encher os olhos. Até parece que estamos introduzindo nossa Brasília, mas a hermana Buenos Aires tem as mesmas características básicas, e muito mais.  Pela maior idade (e pela influência européia), a cidade apresenta mais estilos arquitetônicos, além do modernista: neoclássico, neogótico, art deco e art nouveu. Também tem mais parques, praças, pessoas e problemas - como toda capital.
Dos problemas eu me mantive distante, como bom turista a aproveitar sua última semana de viagem. Se os vi, foi pela janela da microbus – que me trouxe (sozinho, e de graça!) pelos 35 km do aeroporto de Ezeiza até a movimentada Rua Florida, onde me hospedei. Favelas são parecidas em qualquer lugar mundo, e geralmente estão (foram) afastadas o suficiente para não incomodar os visitantes.

Caminhar pra conhecer
O Hostel Florida é um albergue com estrutura maior que os convencionais, afinal, foi instalado em um antigo hotel na rua que lhe dá nome. Por isso mesmo tem aspecto menos “intimista”, maior número de hóspedes, funcionários e até banheiro dentro dos quartos. No meu, estavam hospedados mais um brasileiro e dois “alemão”: um professor universitário da Áustria e um jovem loiro de óculos geek – o Harry Potter da Alemanha.
Segui a mesma estratégia de turismo feita em Santiago. Prévia de distâncias dos percursos no Google Maps; caminhadas solitárias durante o dia; retorno, descanso e socialização à noite. A diferença dessa vez é que soltei mais a “cordinha de segurança imaginária” que marcava o caminho de volta pro hostel e fiz caminhos mais longos e irregulares. Com o mapinha das principais ruas e avenidas no bolso da bermuda, pude acrescentar destinos e atrações não previstas na programação original do dia. Deste modo percorri trechos de até mais de 10 km por “rolezinho”.
Foi assim já no primeiro dia quando fui até a Plaza de Mayo, onde estão importantes prédios públicos, incluindo a Casa Rosada. Sabia que o Porto Madero era próximo e desci até lá. Andei, conheci, fotografei. Olhei no relógio, tinha tempo. Olhei no mapa de bolso, tinha uma reserva ecológica perto. Só uma voltinha nesse parque à beira do Rio da Prata acrescentou uns 5 km na conta de passos. Na volta, pensei: “Por que não subir pelo histórico bairro de San Telmo?!”

La Bombonera
Tava tão “bicho solto” na cidade que até ônibus eu arrisquei pegar. Fui ao Estádio La Bombonera assim, depois de passar pelo motorista aborrecido que até velhinha xingou (e a deixou de fora do buzu). Alertas sobre o perigo do bairro La Boca, mesmo de dia, me fizeram apressar os passos pelas ruas desertas até chegar ao Estádio. Lá dentro curti o museu e o gramado visto da área geral inferior que fica atrás de um dos gols.
Mas queria mais. Abri uma porta não vigiada que separava outros setores e percorri um labirinto de escadas e corredores nas entranhas do estádio até avistar uma luz que revelava o acesso às famosas arquibancadas superiores. Subi lá “encimão”. Lá é tão alto e íngreme que dá certa vertigem. Fiz fotos panorâmicas enquanto imaginava aquilo tudo lotado. Depois custei a achar o caminho de volta, mas consegui sair do estádio rumo ao colorido conjunto de casas de El Caminito.
Turistão não!
Tentei não ser vítima dos programas “pega-turista” que existem em qualquer lugar. O mais óbvio do tipo, em Buenos Aires, é o jantar com tango. Pra quê pagar caro numa chatice de jantar para ver tango se a bela dança pode ser apreciada em locais públicos!? Eu mesmo preferi dar gorjeta aos dançarinos que movimentaram a charmosa Plaza Dorrego em San Telmo, enquanto tomava uma ou duas cervejas por ali. Procurava seguir o que a população local fazia, incluindo uma parada num café, livraria, ou até eventos públicos inusitados como a corrida de kart num circuito montado em plena Avenida 9 de Julho – onde fica o Obelisco.

Se tivesse que seguir um roteiro tradicional, que fosse gratuito, como a visita ao cemitério da Recoleta. Ou que fosse tradição minha, como ver jogo de futebol no estádio. Já que não tinha mais rodadas do campeonato argentino para assistir de perto, o jeito foi procurar bar especializado para acompanhar a final da Sulamericana. Bem na região central encontrei o Tierra de Héroes, decorado com relíquias assinadas por jogadores do mundo todo. No bar temático, porém, o jogo que chamava a atenção e estava na maioria dos telões era a final do campeonato colombiano – que lotou a casa de torcedores nativos do Millionarios.
Imprevistos
Quando fui conhecer os bosques de Palermo, desci do ônibus na Plaza Italia e dei de cara com um Zoológico. Entrei, por que não? Seria mais interessante percorrer os 1000m de distância até a Avenida Libertador conhecendo animais do que vendo carros passar pela Avenida Sarmiento. Só não esperava que o portão do outro lado estivesse fechado. Mas valeu a pena ver de perto um urso polar, um condor, rinocerontes e tigres.

Já nos jardins e bosques, fui surpreendido por uma chuva de verão que abalou minha resistência ao uso dos guarda-chuvas. O aguaceiro caiu no exato instante em que eu estava longe de qualquer abrigo, isolado por longas avenidas e árvores nada copeiras. Cheguei ensopado no destino seguinte, o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA). Sequei-me com um pouco de papel toalha do toalete. Na saída, dei de cara com os atores Wagner Moura e Wladimir Brichta descendo a escada rolante do museu. Fiz cada um tirar foto do outro comigo, usando meu celular. Depois da tietagem fui apreciar as obras de arte e sabem quem eu ainda encontrei? “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral.

Os pés inchados da pintura me lembraram que ainda tinha muito para caminhar. Com o sol de volta pude experimentar novos trajetos, conhecer novas praças, avenidas ou ruelas, sem nunca me cansar de me encantar com a verdadeira obra de arte da capital argentina: a riquíssima arquitetura disponível para contemplação gratuita em construções públicas ou particulares, em cada passo da cidade.

Todas as fotos feitas com um celular Sony Xperia Arc, em dezembro de 2011

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Deserto do Atacama

A paisagem vermelha e plana em volta do aeroporto de Calama, no Chile, já me deixou entusiasmado a ponto de expressar um “UAU” (mental), na saída do avião. Enquanto Roberto Carlos tocava no CD - player da van que nos levava pelos 100km até San Pedro de Atacama, fiquei grudado no vidro igual criança, de olhos bem abertos para o inédito. No caminho, o relevo já se apresentava acidentado, o terreno rochoso; o vermelho dava espaço para o branco do sal e o amarelo-claro da areia.
A vila de San Pedro de Atacama tem pouco mais de 2.500 habitantes e suas ruas são de terra batida. A circulação de carros é proibida em algumas delas. Apesar de pequena, San Pedro é muito organizada e sofisticada. Tem pracinha, igreja, casa de câmbio, museus e restaurantes, do pé sujo ao chique. O povoado vive do turismo, graças a sua localização estratégica, próximo às principais atrações do deserto – tal qual nossa vila de São Jorge, em Goiás, pra quem deseja conhecer a Chapada dos Veadeiros.
Ainda “imitando” o vilarejo goiano, o primeiro passeio clássico a ser feito é ao Vale da Lua. É recomendável contratar excursão com guia e transporte. As agências de turismo formam os grupos de interessados e pegam todos na porta das pousadas e albergues. Em pouco tempo você está sacolejando ao lado de pessoas do mundo inteiro dentro de um microônibus com suspensão ativa a caminho de um local surpreendente.
Antes de chegar ao Vale da Lua, passamos pelo Vale da Morte e outras formações rochosas que servem de mirantes naturais.  No deserto é possível contemplar os cânions, ou passar por meio deles; escorregar pelas dunas gigantes e ouvir os estalidos de sal expandindo no interior de rochedos vermelhos. A impressão – clichê, mas insistente – é de estar em outra planeta.  Mais precisamente, na Marte de nosso imaginário alimentado por Hollywood ou pela NASA.

Mas basta fazer os passeios às Lagunas Altiplânicas, Ojos del Salar ou aos Gêiseres del Tatio, para que o azul refletido nas águas nos lembre que trata-se apenas de um paraíso na Terra, onde até a vida prospera na forma de cactos, lhamas e flamingos. Confesso que os Gêiseres me decepcionaram. Esperava ver água do fundo da terra jorrando no céu, causando estrondo e pânico, chegando a 20 metros de altura, pelo menos. Mas o que vi foi uma “fumacinha” suave e tranquila, o vapor de água quente resfriada na saída das várias cavidades terrestres. Impressionante mesmo é frio de doer e fazer careta, às 6 da manhã e a 4.300m de altitude. Na volta, tem banho em águas termais, já com sol e temperatura mais aceitável. O melhor mesmo foi conhecer o povoado Machuca, vivendo quase rusticamente no meio do nada.

De todas as atrações a que eu mais gostei foi a dos Ojos del Salar. Uma combinação que começa na Laguna de Cejas, passa pelos Ojos e termina na Laguna Tebinquiche. No primeiro lugar é possível ficar “de boa na lagoa”, sem se afundar – graças à alta concentração de sal na água, similar à do mar morto, que impede qualquer tentativa de submersão. Já os Ojos são dois laguinhos profundos de água doce, semelhantes em diâmetro, sozinhos na imensidão de uma planície desértica.


Por último, dá pra caminhar sobre as águas da extensa Laguna Tebinquiche. Mais uma vez a mágica é explicada pelo sal, que agora cristalizado, deixa toda a lagoa com a profundidade de alguns centímetros. Após brincar de Jesus, voltei à margem para contemplar a paisagem.  De um mesmo ponto dava pra mirar dois cenários. De um lado a mistura de cores quentes e frias de um oásis no deserto. Do outro, o contraste de luz e sombra provocado pelo Sol poente. No crepúsculo, o Astro-rei deixou claro nossa insignificância no mundo.



Todas as fotos foram feitas com um celular Sony Xperia Arc em dezembro de 2011

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Santiago do Chile




Além do ineditismo no exterior, minha viagem pro Chile e Argentina foi marcada por outros dois aspectos: o fato de eu ter ido sozinho; a falta de um roteiro pré-definido ou mais detalhado. Apenas os grandes passos estavam acertados. O Chile veio na frente graças à confirmação do jogo do Vasco em Santiago na semana em que se iniciavam minhas férias. E também reservei mais tempo lá – duas semanas inteiras antes do vôo para Buenos Aires – porque tinha o desejo de viajar pra outro lugar dentro do país andino. Só não tinha decidido se ia ver gelo (Patagônia) ou areia (Deserto do Atacama).

Então, lá estava eu, sozinho e sem saber o que fazer no meu primeiro dia fora. Pedi conselhos ao pessoal do hostel, que ficava perto de quase tudo. Segui à pé por 6 ruas até a Plaza de Armas de Santigo, onde estão prédios históricos, a Catedral e muitos museus. Com todo o tempo do mundo, podia entrar em cada um e contemplar o passado à vontade, sem pressa. Infelizmente alguns estavam fechados para reforma, como o Museu de Pré História (justo o mais recomendado por um amigo no Brasil).

O contemporâneo também chamava atenção. Pela familiaridade: praças, ruas e calçadas pisoteadas por movimentos apressados de trabalhadores; anúncios de multinacionais; bancos do Brasil e Itaú, Burger King e Mcdonalds; vira-latas dóceis e espertos; Michel Teló por todo lado. As diferenças: praças, ruas e calçadas limpas e bem cuidadas; casas de câmbio por todo lado; Burger King servindo o prato mais anunciado dos restaurantes e lanchonetes locais – pollo a lo pobre, ou basicamente, frango com fritas; o nome massa dos vira-latas, callejero, derivado de calle (rua); e muito vinho bom, de preço melhor ainda, para ajudar agüentar o Michel Teló.

Às vezes o familiar e o diferente apareciam juntos. Salões de beleza (que mais eram salinhas, de tão apertados) prometiam o “alisado brasileño”. A poluição típica de uma grande cidade não deixou o turista aqui admirar a distinta cordilheira dos Andes, pano de fundo da capital. No Mercado Central fedendo a peixe, um garçom carioca tentou comprar minha presença à mesa de um restaurante na base da conversa mole e de pisco sour. “Já esxpirimentou? Toma aê, por conta da casa”. Tomei meu trago. Gostei do gosto do destilado de uva e do limão no início. Odiei o gosto de ovo no final. Conversei sobre como conseguir ingresso pro jogo do Vasco, agradeci e fui embora.

Tirando a urgência para comprar esse ingresso (já esgotado nos setores populares) e decidir qual seria meu segundo destino dentro do Chile, todos os dias em Santiago foram mais ou menos iguais e muito tranqüilos. Acordava no limite para pegar o café da manhã do Hostel. Decidia meu destino olhando panfletos turísticos ou conversando com alguém. Calculava distâncias e pontos de referências no Google Maps, e saía a pé. Tinha dia que almoçava em lanchonete; outro que me dava ao luxo de um almoço mais digno em algum café (e qualquer restaurante lá, mesmo pequeno, serve sempre a refeição em 3 partes: entrada, prato principal e sobremesa).

À noite era hora de socializar com a comunidade internacional do albergue. Embora a maioria dos hospedes fossem brasileiros, eu priorizava the change of ideas com o pessoal de fora. Tinha francês falando português melhor do que a gente. Neozelandês me perguntado sobre a situação imobiliária em Roraima. Australianos querendo revanche na sinuca. Argentina em busca de trabalho. Português querendo se mudar de vez para Santiago. Chilenas nos colocando de graça nos pubs. Uruguaio querendo estudar. E uma mulher do exército israelense, de folga, de quem eu nem ousei me aproximar.

Antes de deixar Santiago, meu segundo destino já estava confirmado: San Pedro de Atacama. Pela internet mesmo reservei vôo e hospedagem. Quase fui de buzão, mas 24hs previstas de viagem me desanimaram. E o preço da passagem por uma pequena empresa aérea local era praticamente o mesmo. Então lá fui eu, depois de um cancelamento de voo (com pernoite e jantar grátis em hotel bacana da capital) rumo ao norte do país. Ao meu lado, no avião, uma goteira me fez companhia.

sábado, 11 de janeiro de 2014

"És mi primera viaje internacional"


Adorava dizer isso aos anfitriões. Primeiro aos chilenos; depois aos argentinos. Há pouco mais de dois anos, entre novembro e dezembro de 2011, cruzei pela primeira vez a fronteira do Brasil. Ok! Eu já tinha colocado os pés em outro país, o Paraguai, mas foi tão rápido e por um motivo tão besta (fazer compras num shopping com nome chinês e pessoas falando português nas lojas) que nem pude considerar isso uma experiência internacional.
Ao aterrissar no “Aeropuerto” de Santiago no Chile me senti – finalmente e orgulhosamente – um estranho. Pouco antes, enquanto sobrevoava os Andes, comecei a perceber que estava, de fato, bem longe de casa (infelizmente a escuridão da noite não me permitiu vislumbrar direito os famosos montes nevados). Comissários de vôo já me perguntavam o que gostaria de jantar em espanhol. Aprendi ali que pollo era frango, e isso foi de grande serventia no restante da viagem.
Nunca estudei espanhol. Acreditava que o idioma fosse parecido demais com o português para me preocupar. O livrinho de bolso que levei até me ajudou a pedir o taxi para a calle certa, onde ficava o albergue, mas daí em diante apanhei bastante. A começar pela tentativa de puxar conversa sobre futebol com o taxista. Ele custou a entender que el juego ao qual me referia era o que estava prestes a acontecer entre Universidad de Chile e o meu Vascão, ali mesmo em Santiago. O diálogo correria mais fácil se eu soubesse que um jogo de futebol é na verdade, e simplesmente, un partido.

Andes Hostel. Aqui fiz amigos e ensinei como se joga a sinuca brasileira
No começo da madrugada ao hostel cheguei, pero mi español foi-se embora de vez. O jovem que atendia do outro lado do balcão interrompeu meu gaguejar e avisou que eu poderia falar em português. Confirmei minha reserva. Fiquei mais aliviado pela estréia bem sucedida do cartão de crédito internacional. Fiz check-in e fui para o meu “quarto-cela” individual. O normal de um albergue é dividir quarto com a galera (conhecida ou não). Mas na minha primeira noite fora queria ter o sossego dos solitários.
Fiquei querendo. Meu quarto tinha janela virada pra rua mais movimentada das redondezas. A região central e boêmia não dormia tão cedo. Fiquei ali na cama, olhando pro teto, ouvindo barulho de pessoas conversando, garrafas quebrando, caminhões de lixo e de bombeiros passando. De manhã, acordei com barulho de obras e o sol que invadia o quarto. O verão chileno é seco e quente, e nesse clima levantei, tomei café e saí pra passear. Caminhando, conheci lugares, pessoas e vivi situações que valem a pena compartilhar [em outros textos; para você, de ler, não se enjoar].

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Anedota Mineiro-Candanga Real


Este diálogo aconteceu na saída do trabalho, por meio de uma ligação telefônica:

- Pai, bão? É que eu tô saindo do serviço agora e aqui em Sobradinho hoje teve mó chuva, blackout, ficou sem energia de tudo. Nem teve como trabalhar direito. Comé que tá aí na Asa Norte?
- Uai, aqui tá normal.
- Sério?!... Porque sempre que chove muito acaba a energia aí no Plano.
- Não, tá normal. Por quê?
- Pô! Queria saber porque tô programado de ir pra academia agora. Mas se não tiver energia lá, já iria direto pra casa.
- Humm... Sei. Tá querendo fugir da academia né seu preguiçoso!?
- Não uai! Só não quero perder viagem. Enfrentar mais trânsito à toa.
- Bom... A princípio tá tudo ok, mas eu também já tô saindo do trabalho e passo lá na frente pra ver se tá funcionando. É caminho de casa mesmo.
- Beleza! Me liga de volta, então, avisando.
- Pódeixá!
  [...]
Alguns minutos depois:
- Filho, passei por lá!
- E aí?...
- Tem energia.
- Sério?!...Muita?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

10 anos de Brasília


Neste fevereiro de 2012 faz 10 anos que eu saí do interior para tentar a vida na cidade grande... Mentira! Minha vinda para Brasília não teve nenhuma causa importante ou qualquer aspecto emocionante - a não ser para minha mãe, que chorou ao ver meu ônibus partir da rodoviária de Uberlândia. A história que conto agora não tem o mesmo drama que a de um tal João de Santo Cristo.

Eu era apenas um entediado jovem de 17 anos querendo mudar de ares. Na verdade, queria ter ido pra Goiânia, onde meu pai morava, mas ele já havia migrado de lá. Este sim viveu uma espécie de saga pessoal. Deixou o conforto do lar e sua esposa, temporariamente, para dividir com um amigo um apartamento mobiliado apenas com geladeira e colchão, em cima de uma oficina na asa norte. Depois, já com a mulher por aqui, foram para um apêzinho de 2 quartos, ainda na asa norte, até chegarem a um confortável 3 quartos com suíte no sudoeste, onde me receberam.

Lembro que cheguei em Brasília num dia e fui para o colégio no outro. O colégio, por sinal, não era aquele em que eu estava inicialmente matriculado - um tal de "Ícone", não conseguiu fechar turma para o 3º ano. Então fui para o Dromos, onde comecei minha vivência brasiliense e vi que a juventude daqui não era tão diferente.

De lá pra cá houve apenas uma ameaça à minha permanência na capital, e foi logo após o fim do segundo grau. É que havia passado no vestibular da Federal de Uberlândia, pra Ciência da Computação, e não acompanhei a 3ª chamada. Logo, perdi o prazo de matrícula mas nem me desesperei pela oportunidade perdida. No mesmo dia em que descobri isso - pouco antes, pela manhã - havia decidido, convicto, o meu destino: fazer o curso de História na Universidade de Brasília. Passar no vestibular não foi difícil, e assim ingressei na Unb, onde passei a maior parte de minha vida candanga.

Da Unb e da Asa Norte, onde fui morar, surgiram os melhores amigos, os amigos caminhoneiro(a)s e descaralhada(o)s, a primeira namorada, a galera do futebol, as festinhas, os bares, e claro, os milhares de textos lidos ou apenas fotocopiados. Asa Norte foi onde aprendi a correr, no Parque Olhos D'água. Unb foi onde mais me nutri, de comida e sabedoria popular, no saudoso R.U. Do curso mesmo, pouca coisa ficou, já que não consegui seguir carreira como pesquisador, nem como professor.

Profissionalmente, segui outros passos, e Brasília foi o palco de todas minhas experiências profissionais. Desde os pequenos bicos, como fiscal de prova e monitorias, durante a faculdade, até uma uma pequena passagem pelo Correio Braziliense, como estagiário. Quase me formando, entrei casualmente na onda de fazer um concurso público, por sugestão de uma namorada, e acabei passando. Virei servidor público na ANAC, e donde tenderia haver apenas coleguismo profissional, surgiram amizades incríveis e duradouras.

Seria difícil contar toda minha experiência e todos os lugares por que passei em Brasília em um único texto. Mas é bom relembrar, antes de terminá-lo, que já tive rápidas passagens pelo Uniceub, fazendo direito; pelo Dulcina, fazendo teatro; e pelo SENAC, fazendo lógica computacional. Já fui ao Pistão Sul, Conic, Água Mineral e Facita. . Já bebi (e cantei) na Praça dos Três Poderes, na pracinha da Palato e no karaokê do Strangers; já comi o Rodoburguer, o pastel Viçosa e a pizza Dom Bosco. E posso dizer, com orgulho, que nunca corri de sunga do parque; nunca falei "carái véi", nem usei os vocativos "véi", "velho", ou "brother".

Neste meu último ano resolvi fazer o curso de Jornalismo, de volta ao Ceubão, e agora estou trabalhando no Tribunal de Justiça do Distrito Federal - onde nunca imaginei ou sonhei estar, mas adorando a experiência e a dinâmica do trabalho. Ainda não encontrei Maria Lúcia, mas também nenhum Jeremias. Para quem chegou aqui sem ter ideia do que fazer, até que teve bão, né?!




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Conquista de Romã


No final da tarde desta sexta-feira em Uberlândia, minha mãe fez um pedido tranquilo para um filho realizar, ainda que na preguiça das férias: levá-la para comprar uma romã, de modo que ela, minha tia e meu irmão pudessem fazer a simpatia dos 3 reis magos, possível somente na data de 6 de janeiro de cada ano.

Segundo ela a simpatia - que consiste basicamente em desprezar, comer e guardar cada grupo de 3 sementes da fruta, mencionando os nomes de Belchior, Baltasar e Gaspar em dado momento - serve para trazer e garantir dinheiro (e outras boas sortes) pelo resto do ano. Não acredito nessas e outras coisas, mas não ia deixar de atender esse singelo pedido de mãe, por sua vez deixado de herança por Dona Mariza, minha inesquecível avó. Além de ter muita mãe envolvida nisso, não queria ser eu a pessoa a obstar o espetáculo do crescimento econômico da minha família.

Então peguei o carro e lá fomos nós onde ela achava que existia um sacolão. Chegando lá, surpresa!!! Só havia uma papelaria, num caminho que ela praticamente faz todo dia. Beleza! Seguimos para um mercadinho próximo. Nada de romã, mas garantimos o pão de queijo e o suco pro lanche da noite. Daí ela resolveu apelar e pediu que fôssemos a um supermercado de uma grande rede nacional. Estacionando lá perto, ouvi dela: "Não acredito que vou enfrentar supermercado a uma hora dessas para comprar 1(uma) romã". A incredulidade começava a mudar de lado.

Mas parece que a oferta de romã também não faz parte das estratégias de venda desses supermercados. Ou talvez isso seja conspiratório. Os donos de mercados, pequenos ou grandes, não estavam afim de dividir os segredos de suas riquezas com o restante da população. O fato é que não encontramos a fruta pra vender. Se ela não podia ser comprada, restava ser apanhada. Mas onde?

Minha mãe lembrou de uma empresa que vendia não-sei-lá-o-quê na esquina de uma avenida um pouco afastada do centro da cidade. Lá dentro teria um pé de romã, mas teríamos que ser rápidos para encontrar a loja aberta e poder pedir permissão pra pegar a fruta. Chegamos a tempo, mas o lugar parecia abandonado. Sem atividade, estava cercado e trancado. O pé de romã estava lá no jardim frontal, quase dois metros distante de uma cerca  formada por uma trama losangular estreita de arame - que permitia que o víssemos, mas não o alcançássemos.

Já era hora de acionar o filho racionalista e descrente que há em mim e começar a consolar minha mãe, ponderando sobre implausibilidade e falta de lógica dessas práticas, aproveitando que até ela já tinha se dado por vencida: "Ah! Deixa pra lá!". Mas quando dei por mim já tinha descido do carro e estava cogitando pular a cerca, dar um jeito. Depois de rodar a cidade em busca dessa romã, eu não ia desistir ali, tão próximo dela.

Obcecado, arrumei um grande pedaço de galho quebrado solto no chão, mas era irregular para penetrar a cerca, e fraco demais para abater a única fruta da árvore. Voltei a pensar em pular, mas não seria uma boa ideia fazer isso quando patrulhas da ROTAM tinham acabado de passar por ali. O arame farpado que cobria a cerca também ajudou a impedir essa besteira.

Então a providência me fez enxergar um pecíolo (a haste, o "cabo", para quem já chegou até aqui não precisar procurar no Google) seco de uma ex-folha de palmeira. Tinha a espessura que permitia atravessar a trama da cerca; o comprimento que chegava até à romã lá no alto; e a resistência necessária para romper o pedúnculo que prendia a fruta. Segurando essa "espada" com as duas mãos, dei umas 30 chineladas na bendita, e nada! Minha mãe: "É...Não vai dar, ela é difícil de desprender"...

Eu? Recuperei o fôlego, elevei meu Ki ao máximo, e dei a última cutucada! A romã caiu perpendicular ao solo. Puxei-a para cerca da cerca, e o restante foi com minha mãe, já que só seu antebraço fino podia atravessá-la para catar a fruta. A simpatia também ficou por sua conta, já que eu não dou importância pra nada disso não.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011



Foi um ano de muitas novidades e primeiras-vezes.
Iniciei-o em pleno e inédito alto-mar;
Virei calouro de um novo curso superior, em fevereiro;
Tornei-me proprietário de um bem maior que um Playstation em março;
Estudei e trabalhei muito em abril;
Não me lembrei de nada marcante em maio;
Em junho, sucesso futebolístico: comemorei título do meu Vascão depois de anos, e fui tricampeão da Taça Eric Hobsbawn de Futebol, Cultura e Arte, consolidando o time do 2003 United como o maior da História.

Em julho: mudei de emprego, mas não de serviço, que continua sendo público e federal. Criei coragem para começar este blogue. Ri e fiz rir, em uma viagem memorável com as descaralhadas.

Completei minha primeira meia-maratona, na Cidade Maravilhosa, em Agosto;
Não desisti do meu novo curso em setembro, e ganhei uma irmã linda em Outubro.

Em novembro, principiei sozinho minha primeira viagem internacional, e voltei dela com amigos e amigas inesquecíveis;
Cometi minha primeira gafe "jornalística" em dezembro, e terminei o ano com 6 quilos a menos, junto à minha querida família.


Valeu demais!

domingo, 28 de agosto de 2011

21km e a Vida



Consegui! No domingo passado, atingi meu objetivo de terminar a Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro. Uma experiência única na minha vida, até então.

Antes da prova, a preparação consistiu em evitar os excessos possíveis em uma cidade como o Rio de Janeiro. Na companhia de meu pai, irmão, familiares e amigos, sexta à noite foi de apenas três chopes e duas "pescoços-longos" entre um restaurante árabe, em Copacabana, e uma despretensiosa calçada de bar na Lapa. Sábado de manhã, aproveitamos os últimos instantes de sol na praia de Ipanema. Depois, feijoada pro almoço, e chuva pro resto do fim de semana.

A chuva - acompanhada do frio - foi providencial para acalmar os ânimos deste novato e vislumbrado turista na cidade, além de criar as condições climáticas perfeitas para a corrida no dia seguinte. Assim, o sábado à noite foi de pizza (necessária nutricionalmente) e recolhimento ao hotel. No domingo pela manhã, nem acreditei que o despertador estava tocando tão alto e tão cedo. A ansiedade que já não me deixara dormir direito, continuou até o início da prova - quando finalmente, colocado em movimento, tudo começou a passar.

Antes dos primeiros passos, meu pai deu as últimas instruções de quando e como usar os suplementos alimentares (sachês de carboidrato em gel e comprimidos de vitaminas e sais minerais). Ainda estava em dúvida se levaria ou não meu ipod, pois não gosto de correr com muitos apetrechos, ainda mais de ficar brigando com fones de ouvidos que sempre escorregam. Acabei levando, e a decisão acabaria se tornando acertada: Bob Dylan, Rolling Stones e outros artistas me ajudaram a embalar os passos, deram ritmo e fizeram companhia.

Passei pelos primeiros quilômetros com cautela e tranquilidade, controlando a empolgação da largada. Sabia que não podia gastar tudo ali. Então, aproveitei o engarrafamento de corredores para ir devagar, enquanto subia a encosta do Vidigal, e vislumbrava as primeiras paisagens do percurso. Crianças da favela local ficavam nas muretas à beira da pista com as mão esticadas a dar aquele toque e incentivos aos corredores. Muito legal, estapeei a mão de umas cinco enquanto seguia pela extrema direita do asfalto, curtindo o "marzão" visto lá de cima.

Lá pelos quilômetros 4 e 5, já descendo rumo a Leblon e Ipanema, o rim direito começou a arder, o pé esquerdo a ficar dormente. Tudo isso era previsto, esses problemas já me acompanhavam nos treinos casuais. Só achei que era cedo demais pra eles começarem a me perturbar. Em Ipanema mais pessoas incentivando, apoiando. Torcedores do Vasco começavam a reconhecer minha homenagem ao clube no dia de seu aniversário e gritavam o nome do time por onde passava.

Quando cheguei à marca de 10km, já em Copacabana, conferi o cronômetro e vi que 1 hora já tinha se passado, junto com as dores. Estava aquecido e bem, pensei: "Bom, agora só falta fazer tudo que eu já sei". E lá fui eu pros 11km restantes, reabastecido de carboidratos, vitaminas e etceteras.

Faltando 6km, lá pelo Flamengo, é possível avistar a galera chegando do outro lado da avenida, o que dá uma sensação ilusória de que o fim está próximo. E não está! Mesmo assim, apertei o ritmo. Já estava confiante que conseguiria chegar, então resolvi incrementar meu desafio com velocidade, e me senti o máximo ultrapassando um bocado de gente. Mas 6km é chão "mermão"! A 2km do fim as dores apareceram e o esforço extra pesou. Tive que maneirar. A aleatoriedade do ipod me ajudou - com Bob Marley - a diminuir o ritmo e curtir o momento.
 
No último quilômetro, o paradoxo do fim: a ideia era terminar a prova, mas eu não queria que tudo aquilo acabasse. Um passeio por toda aquela natureza, por sua vez originado da minha própria, do movimento insistente e incessante do meu corpo, do jogo de ação e reação entre meus pés e o ambiente, trouxe uma sensação indescritível de saúde e bem estar. Estava feliz... E involuntariamente, eu que nem sou religioso, cruzei a linha de chegada imitando o monumental Cristo da cidade: de braços abertos, me rendi à vida. Muito obrigado!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

21km ou a Morte (parte 1)


O próximo domingo, 21 de agosto, será especial! Além de aniversário do Clube de Regatas Vasco da Gama, será dia de um grande desafio pessoal nas ruas do Rio de Janeiro: correr os 21 quilômetros de sua Meia Maratona Internacional.

A inscrição foi paga, as passagens aéreas emitidas, o hotel reservado. É... não vai ter como fugir. Devo estar lá já no dia 19, sexta-feira, para aproveitar um pouco da cidade maravilhosa. E se o Rio de Janeiro não atrapalhar, estarei acordado, alongando e me aquecendo às 8 da manhã de domingo para a largada na praia de São Conrado, início dos 21.097 metros até o Aterro do Flamengo.

A princípio não encararia esse tanto de chão - vale lembrar, à pé - se não fosse pra fugir de alguém ou algo me ameaçando de morte. Muitos sabem que pratico a corrida na boa, como meio, apenas uma forma de manter-me em forma, e fazer outras coisas mais interessantes com o corpo. Já cheguei a correr 10km em algumas provinhas aqui por Brasília. Mas nunca fui viciado, apaixonado pela corrida em si. Inclusive, iria ao Rio só para aproveitar a cidade e acompanhar meu pai (este sim, super-e-multi-atleta).

Mas eis que de tanto praticar, tomo gosto pela coisa, e de simples ferramenta para o corpo, a corrida torna-se objetivo do espírito, necessidade da alma. E agora lanço-me o desafio: fazer o que nunca fiz. Superar limites desconhecidos. Correr 21km neste 21 de agosto de 2011.

O resultado... só semana que vem, se eu estiver vivo.