sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Anedota Mineiro-Candanga Real


Este diálogo aconteceu na saída do trabalho, por meio de uma ligação telefônica:

- Pai, bão? É que eu tô saindo do serviço agora e aqui em Sobradinho hoje teve mó chuva, blackout, ficou sem energia de tudo. Nem teve como trabalhar direito. Comé que tá aí na Asa Norte?
- Uai, aqui tá normal.
- Sério?!... Porque sempre que chove muito acaba a energia aí no Plano.
- Não, tá normal. Por quê?
- Pô! Queria saber porque tô programado de ir pra academia agora. Mas se não tiver energia lá, já iria direto pra casa.
- Humm... Sei. Tá querendo fugir da academia né seu preguiçoso!?
- Não uai! Só não quero perder viagem. Enfrentar mais trânsito à toa.
- Bom... A princípio tá tudo ok, mas eu também já tô saindo do trabalho e passo lá na frente pra ver se tá funcionando. É caminho de casa mesmo.
- Beleza! Me liga de volta, então, avisando.
- Pódeixá!
  [...]
Alguns minutos depois:
- Filho, passei por lá!
- E aí?...
- Tem energia.
- Sério?!...Muita?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

10 anos de Brasília


Neste fevereiro de 2012 faz 10 anos que eu saí do interior para tentar a vida na cidade grande... Mentira! Minha vinda para Brasília não teve nenhuma causa importante ou qualquer aspecto emocionante - a não ser para minha mãe, que chorou ao ver meu ônibus partir da rodoviária de Uberlândia. A história que conto agora não tem o mesmo drama que a de um tal João de Santo Cristo.

Eu era apenas um entediado jovem de 17 anos querendo mudar de ares. Na verdade, queria ter ido pra Goiânia, onde meu pai morava, mas ele já havia migrado de lá. Este sim viveu uma espécie de saga pessoal. Deixou o conforto do lar e sua esposa, temporariamente, para dividir com um amigo um apartamento mobiliado apenas com geladeira e colchão, em cima de uma oficina na asa norte. Depois, já com a mulher por aqui, foram para um apêzinho de 2 quartos, ainda na asa norte, até chegarem a um confortável 3 quartos com suíte no sudoeste, onde me receberam.

Lembro que cheguei em Brasília num dia e fui para o colégio no outro. O colégio, por sinal, não era aquele em que eu estava inicialmente matriculado - um tal de "Ícone", não conseguiu fechar turma para o 3º ano. Então fui para o Dromos, onde comecei minha vivência brasiliense e vi que a juventude daqui não era tão diferente.

De lá pra cá houve apenas uma ameaça à minha permanência na capital, e foi logo após o fim do segundo grau. É que havia passado no vestibular da Federal de Uberlândia, pra Ciência da Computação, e não acompanhei a 3ª chamada. Logo, perdi o prazo de matrícula mas nem me desesperei pela oportunidade perdida. No mesmo dia em que descobri isso - pouco antes, pela manhã - havia decidido, convicto, o meu destino: fazer o curso de História na Universidade de Brasília. Passar no vestibular não foi difícil, e assim ingressei na Unb, onde passei a maior parte de minha vida candanga.

Da Unb e da Asa Norte, onde fui morar, surgiram os melhores amigos, os amigos caminhoneiro(a)s e descaralhada(o)s, a primeira namorada, a galera do futebol, as festinhas, os bares, e claro, os milhares de textos lidos ou apenas fotocopiados. Asa Norte foi onde aprendi a correr, no Parque Olhos D'água. Unb foi onde mais me nutri, de comida e sabedoria popular, no saudoso R.U. Do curso mesmo, pouca coisa ficou, já que não consegui seguir carreira como pesquisador, nem como professor.

Profissionalmente, segui outros passos, e Brasília foi o palco de todas minhas experiências profissionais. Desde os pequenos bicos, como fiscal de prova e monitorias, durante a faculdade, até uma uma pequena passagem pelo Correio Braziliense, como estagiário. Quase me formando, entrei casualmente na onda de fazer um concurso público, por sugestão de uma namorada, e acabei passando. Virei servidor público na ANAC, e donde tenderia haver apenas coleguismo profissional, surgiram amizades incríveis e duradouras.

Seria difícil contar toda minha experiência e todos os lugares por que passei em Brasília em um único texto. Mas é bom relembrar, antes de terminá-lo, que já tive rápidas passagens pelo Uniceub, fazendo direito; pelo Dulcina, fazendo teatro; e pelo SENAC, fazendo lógica computacional. Já fui ao Pistão Sul, Conic, Água Mineral e Facita. . Já bebi (e cantei) na Praça dos Três Poderes, na pracinha da Palato e no karaokê do Strangers; já comi o Rodoburguer, o pastel Viçosa e a pizza Dom Bosco. E posso dizer, com orgulho, que nunca corri de sunga do parque; nunca falei "carái véi", nem usei os vocativos "véi", "velho", ou "brother".

Neste meu último ano resolvi fazer o curso de Jornalismo, de volta ao Ceubão, e agora estou trabalhando no Tribunal de Justiça do Distrito Federal - onde nunca imaginei ou sonhei estar, mas adorando a experiência e a dinâmica do trabalho. Ainda não encontrei Maria Lúcia, mas também nenhum Jeremias. Para quem chegou aqui sem ter ideia do que fazer, até que teve bão, né?!




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Conquista de Romã


No final da tarde desta sexta-feira em Uberlândia, minha mãe fez um pedido tranquilo para um filho realizar, ainda que na preguiça das férias: levá-la para comprar uma romã, de modo que ela, minha tia e meu irmão pudessem fazer a simpatia dos 3 reis magos, possível somente na data de 6 de janeiro de cada ano.

Segundo ela a simpatia - que consiste basicamente em desprezar, comer e guardar cada grupo de 3 sementes da fruta, mencionando os nomes de Belchior, Baltasar e Gaspar em dado momento - serve para trazer e garantir dinheiro (e outras boas sortes) pelo resto do ano. Não acredito nessas e outras coisas, mas não ia deixar de atender esse singelo pedido de mãe, por sua vez deixado de herança por Dona Mariza, minha inesquecível avó. Além de ter muita mãe envolvida nisso, não queria ser eu a pessoa a obstar o espetáculo do crescimento econômico da minha família.

Então peguei o carro e lá fomos nós onde ela achava que existia um sacolão. Chegando lá, surpresa!!! Só havia uma papelaria, num caminho que ela praticamente faz todo dia. Beleza! Seguimos para um mercadinho próximo. Nada de romã, mas garantimos o pão de queijo e o suco pro lanche da noite. Daí ela resolveu apelar e pediu que fôssemos a um supermercado de uma grande rede nacional. Estacionando lá perto, ouvi dela: "Não acredito que vou enfrentar supermercado a uma hora dessas para comprar 1(uma) romã". A incredulidade começava a mudar de lado.

Mas parece que a oferta de romã também não faz parte das estratégias de venda desses supermercados. Ou talvez isso seja conspiratório. Os donos de mercados, pequenos ou grandes, não estavam afim de dividir os segredos de suas riquezas com o restante da população. O fato é que não encontramos a fruta pra vender. Se ela não podia ser comprada, restava ser apanhada. Mas onde?

Minha mãe lembrou de uma empresa que vendia não-sei-lá-o-quê na esquina de uma avenida um pouco afastada do centro da cidade. Lá dentro teria um pé de romã, mas teríamos que ser rápidos para encontrar a loja aberta e poder pedir permissão pra pegar a fruta. Chegamos a tempo, mas o lugar parecia abandonado. Sem atividade, estava cercado e trancado. O pé de romã estava lá no jardim frontal, quase dois metros distante de uma cerca  formada por uma trama losangular estreita de arame - que permitia que o víssemos, mas não o alcançássemos.

Já era hora de acionar o filho racionalista e descrente que há em mim e começar a consolar minha mãe, ponderando sobre implausibilidade e falta de lógica dessas práticas, aproveitando que até ela já tinha se dado por vencida: "Ah! Deixa pra lá!". Mas quando dei por mim já tinha descido do carro e estava cogitando pular a cerca, dar um jeito. Depois de rodar a cidade em busca dessa romã, eu não ia desistir ali, tão próximo dela.

Obcecado, arrumei um grande pedaço de galho quebrado solto no chão, mas era irregular para penetrar a cerca, e fraco demais para abater a única fruta da árvore. Voltei a pensar em pular, mas não seria uma boa ideia fazer isso quando patrulhas da ROTAM tinham acabado de passar por ali. O arame farpado que cobria a cerca também ajudou a impedir essa besteira.

Então a providência me fez enxergar um pecíolo (a haste, o "cabo", para quem já chegou até aqui não precisar procurar no Google) seco de uma ex-folha de palmeira. Tinha a espessura que permitia atravessar a trama da cerca; o comprimento que chegava até à romã lá no alto; e a resistência necessária para romper o pedúnculo que prendia a fruta. Segurando essa "espada" com as duas mãos, dei umas 30 chineladas na bendita, e nada! Minha mãe: "É...Não vai dar, ela é difícil de desprender"...

Eu? Recuperei o fôlego, elevei meu Ki ao máximo, e dei a última cutucada! A romã caiu perpendicular ao solo. Puxei-a para cerca da cerca, e o restante foi com minha mãe, já que só seu antebraço fino podia atravessá-la para catar a fruta. A simpatia também ficou por sua conta, já que eu não dou importância pra nada disso não.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011



Foi um ano de muitas novidades e primeiras-vezes.
Iniciei-o em pleno e inédito alto-mar;
Virei calouro de um novo curso superior, em fevereiro;
Tornei-me proprietário de um bem maior que um Playstation em março;
Estudei e trabalhei muito em abril;
Não me lembrei de nada marcante em maio;
Em junho, sucesso futebolístico: comemorei título do meu Vascão depois de anos, e fui tricampeão da Taça Eric Hobsbawn de Futebol, Cultura e Arte, consolidando o time do 2003 United como o maior da História.

Em julho: mudei de emprego, mas não de serviço, que continua sendo público e federal. Criei coragem para começar este blogue. Ri e fiz rir, em uma viagem memorável com as descaralhadas.

Completei minha primeira meia-maratona, na Cidade Maravilhosa, em Agosto;
Não desisti do meu novo curso em setembro, e ganhei uma irmã linda em Outubro.

Em novembro, principiei sozinho minha primeira viagem internacional, e voltei dela com amigos e amigas inesquecíveis;
Cometi minha primeira gafe "jornalística" em dezembro, e terminei o ano com 6 quilos a menos, junto à minha querida família.


Valeu demais!

Relacionamento Sério: A Melhor Opção =/



Vários dias pensando sobre o assunto, duas noites em claro construindo um texto, fazendo o rascunho, preparando os argumentos, amarrando-os de forma lógica e até certo ponto criativa. Texto publicado. Quase tudo perfeito para a consolidação de uma crítica contundente a certo costume disseminado nas redes sociais - o de pessoas escolherem o status denominado "relacionamento sério" para definirem suas relações de "namoro"-, se não fosse por um grande erro de minha parte:

O Erro

Faltou-me, simplesmente, conhecer do objeto. Testar o sistema, verificar as opções fornecidas pelo Facebook (a principal mídia social, e na qual a criticada opção aparece tanto). Tivesse feito isso, constataria que não existe o status "namorando", e portanto, não há alternativa melhor para os enamorados do que o insípido "relacionamento sério" mesmo. Afinal, "noivo(a)" e "casado(a)" servem para outros estágios da paixão; "relacionamento enrolado" e "amizade colorida" são eufemismos de putaria; e viúvo(a), separado(a) ou divorciado(a) representam sofrimento demais para alguém divulgar isso.

A Justificativa

1. Inabilidade com a ferramenta: atire a primeira pedra aquele quem achou em menos de 20 minutos o caminho para trocar o status de relacionamento no Facebook! Aliás, deve ter gente que nunca o encontrou ou sequer sabe que existe. Depois da minha terceira tentativa, confesso que desisti de procurar. Não é fácil achar a caixa de diálogo que fornece as possibilidades de definição do relacionamento. Ainda nesse sentido e em minha defesa, é sabido que o próprio co-fundador da mídia, Eduardo Saverin, teve problemas com sua namorada por não conseguir mudar sua situação de solteiro para alguma que revelasse seu compromisso com a moça.

2. Transposição de mídias: se não existe no Facebook, o status "namorando" sempre esteve firme e forte no Orkut, onde apareceu primeiro e marcou presença no imaginário dos internautas brasileiros. Parecia óbvio que as opções fossem as mesmas para ambas as redes, mas as traduções diversificaram e nos deram a chance de escolhermos também entre amizade colorida, no Facebook, ou casamento aberto (???) no Orkut. De qualquer forma, eu não podia achar que as mídias se equivalessem em qualquer aspecto.

A Retratação

Eis então que venho por meio desta nota retratar-me perante os milhões de casais de namorados brasileiros, ofendidos por minha crítica descabida e infundada às suas supostas péssimas escolhas de autodivulgação de relacionamentos em redes sociais, em particular à do facebook. Conforme visto, lá não há alternativa digna dos nossos costumes. Tenho medo que um dia tenhamos que escolher "Em uma data" para mostrar que estamos namorando alguém.

O Aprendizado

Fiz questão de manter a postagem anterior, coerente e plausível na sua construção - pronta a formar uma opinião - porém viciada em sua própria materialidade, sem objeto válido que a sustentasse. Que sirva de exemplo, ainda que simples e elementar, dos perigos e delicadezas de quem lida com informação, seja produzindo ou consumindo-a. O blogue vai cumprindo assim sua função didática vislumbrada lá nos primeiros rabiscos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A Hipocrisia do Relacionamento Sério

 
É interessante constatar nas redes banais (sociais) o grande número de casais que definem sua situação amorosa como "em relacionamento sério". Afinal, o que isso significa?

Segundo o Maicon (dicionário Michaelis), relacionamento é o ato ou efeito de se relacionar. Sério, como adjetivo, tem acepções que vão desde algo honesto, de confiança, passando por características de disposição, aparência ou maneiras graves, sisudas, até chegar a algo que não é alegre, nem leviano ou frívolo.Mas um relacionamento, ainda mais do tipo amoroso/ afetivo, não deveria ser justamente algo leve, alegre, e tranquilo?

O engraçado é que pessoas que já estão namorando, há muito ou pouco tempo, outras que estão praticamente casadas; humanóides de todas as etnias, classes sociais e opções sexuais, estão colocando esse "status" que parece mais servir pra definir uma relação profissional do que pessoal. Afinal, relacionamento sério é o que se tem com seu chefe, colegas de trabalho, clientes: há diversas interações interpessoais constantemente regidas por códigos de conduta específicos para cada relação. Sexo? Só no sentido figurado: se fizer coisa errada, seu chefe pode te f. por isso.

De ordem mais pessoal, o casamento sim seria um relacionamento sério, com contrato assinado, testemunha e tudo. A relação entre pais e filhos é outro exemplo. A despeito do carinho e afeto que pode haver, nosso Código Civil traz uma série de obrigações e responsabilidades recíprocas que vão desde o nascimento destes, até além da morte daqueles.

Mas enfim, por que casais de namorados não colocam que estão namorando ao se autopromoverem nas redes? Seria uma espécie de medo, vergonha, precaução? Não sei. Não entendo. Talvez porque tenha amor no significante "nAMORando". As pessoas custam a se envolver emocionalmente, daí a exibirem-se demais perto desse sentimento... É um custo assumir publicamente que estão envolvidos com essa "coisa", ainda mais com a possibilidade de não dar certo diante dos olhos dos outros. Já a outra opção parece mais um compromisso, um acordo, um ato mais racional. Se der errado, tudo bem, é só desfazer a escolha. Ironicamente, o grande número de trocas – dentro do perfil de uma mesma pessoa – do status  "em relacionamento" para "solteiro" (e vice-versa) acaba evidenciando que essas relações não são nada sérias mesmo.

Mas namorar é isso: é errar, é tentar, é buscar. Não é nada mais, nada menos que:

na.mo.rar vtd 1 Esforçar-se para conseguir o amor de; cortejar, galantear. 2 Atrair, cativar, seduzir, inspirar amor a. vint 3 Andar em galanteios. vpr 4 Tornar-se enamorado; 5 Agradar-se, ficar encantado. vtd 6 Desejar possuir, cobiçar. vtd 7 Fitar com afeto e insistência. vtd 8 Empregar todos os esforços para obter.

(2011, Editoria Melhoramentos Ltda., Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Nunca Tive um Guarda-Chuva!


Chego ao local de trabalho com as marcas de chuva dando textura à camisa lisa e sem graça que estava usando, quando uma colega pergunta: “Você esqueceu o guarda-chuva?”

Eu poderia responder simplesmente que sim, assumir um erro, deixar evidente que ocorrera um lapso de planejamento para dias tão chuvosos em Brasília. Mas a questão me fez pesquisar rapidamente toda minha experiência com tal objeto, e assim pude responder, categórico: “Não esqueci. Eu nunca tive guarda-chuva!”
Satisfeita a curiosidade da minha colega, fui atrás da minha, provocada por uma Marília Gabriela imaginária que indagou: “Pórr quÊ?” Por que diabos eu praticamente nunca fiz uso desse utensílio tão comumente usado – com suas variações tecnológicas, desde os tempos mais remotos, pelas mais diversas culturas? Nessa entrevista que se iniciou, percorri todo o passado em busca das razões que pudessem explicar possível idiossincrasia.

S.B.: - Então Gabi... Não sei... [pensativo, enrolando o topete com os dedos]. Nunca fui milionário, mas posso dizer também que não sofri na vida em termos de conforto, segurança, etc. Quando criança, sempre fui carregado pra cima e pra baixo de carro pelos meus parentes. No dia-a-dia, o máximo que ficava sujeito às intempéries eram os poucos segundos e metros que separavam a porta do carro do portão da escola. Talvez seja por aí, o começo de tudo.

M.G.: -Eu vi aqui que você é historiador, não é?

S.B.: - Não!... Sou formado em História. Não me considero historiador porque não tenho a honra e o prazer de praticar essa arte, esse ofício.

M.G.: -Mas deve conhecer Karl Marx, que tinha uma interpretação da História baseada na questão material, econômica, não é?

S.B: - Conheço um bocado sim, grande Carlos Marques! [risos, solitário] É como chamo o velho barbudo.  Mas tá certa. É por aí sim.

M.G.: - Então poderia dizer que essa sua condição material, esse fator sócio-econômico privilegiado, foi determinante na sua negação ao guarda-chuva?

S.B.: - Não necessariamente. Se eu tivesse respondendo isso ao Carlitos, talvez gostasse da explicação, mas nem ele se daria por satisfeito. Tudo que envolve o ser humano é complicado. Basta lembrar, inclusive, que na Mesopotâmia e Egito antigos o uso do então guarda-sol era restrito às pessoas do alto escalão, cuja distinção, por sua vez, era baseada em critério político ou religioso. Mesmo mais tarde, na era moderna européia, quando mais disseminado e tendo comprovada utilidade, o já portátil e pessoal guarda-chuva (trazido da China) sofreu com o preconceito de gênero: era considerado coisa de mulher, perpetuando uma tradição cultural greco-romana que abolia o uso, pelos homens, de artefatos para se proteger do clima. Enfim, cada caso, mesmo o mais simples, merece uma investigação cuidadosa e envolvente, abrangendo todos os possíveis e plausíveis fatores, espalhados pelo espaço e pelo tempo.

M.G.: - Falando em espaço e tempo, você viveu a infância e adolescência em Uberlândia. Aos 17, foi morar em Brasília, que todos sabem, é muito seca. Por acaso em Uberlândia não chove muito? Talvez seja essa a razão?

S.B.: - Não, não! Uberlândia não é uma Londres, mas chove sim, e chove muito. Basta lembrar que a cidade só aparece nos telejornais nacionais pra exibir os estragos das inundações. E Brasília não é seca o ano todo. Inclusive, já ouvi de geógrafos que é proibido afirmar, tecnicamente, que o clima de Brasília é seco. Não lembro agora, mas tem o adjetivo úmido ou semi-úmido na definição oficial do nosso clima lá, então...

M.G.: ...não é pela geografia que iremos continuar...
(pausa)

S.B.: ...Mas foi bom você ter mencionado o tempo da adolescência, porque já foi uma época em que comecei a [faz sinal de aspas com as mãos] desmamar das caronas parentais. Comecei experimentando o ônibus, que era da linha particular do colégio, e passava pertin de casa. Depois passei pro coletivo, o público mesmo, aquele que te deixa longe do local desejado. Mas foi quando mudei de casa, e fui morar perto do centro, que virei bicho-solto:...virei pedestre

M.G.: E ainda assim não utilizava o guarda-chuva?
S.B.: Não.
M.G.: E o que fazia quando chovia?
S.B.: Daí eu tinha um bom motivo pra pedir carona [risos]. Ou pra deixar de ir ao inglês [risos X2].
M.G.: E como fazia com seus compromissos, com o colégio, o inglês?

S.B.: [volta à fisionomia séria. Olhando pra baixo, tenta relembrar...] Mas nem era isso que acontecia na maioria das vezes. Sempre fui muito responsável. Quando chovia eu sei lá,... deixava a chuva passar, esperava ela diminuir... corria no meio dela, seguia seu ritmo, me molhava um pouco.  Ia me abrigando a cada teto encontrado pela rua,... As árvores. Me molhava um pouco, não me importava.

M.G.: [conferindo suas anotações sobre a mesa] Humm... Eu vi aqui que você utilizou as palavras; os verbos, melhor dizendo: “deixar”, “esperar”, "seguir",“não se importar”. Posso afirmar então que você adota, assume uma postura passiva diante dos acontecimentos, das circunstâncias, quem sabe até, da vida?

S.B.: [desconcertado] Dito assim parece pejorativo. E não dá pra generalizar assim, extrapolar de um caso particular ao geral sem analisarmos mais situações. [quase bravo] Então eu não assumo isso não... [mais calmo]... Prefiro dizer que tenho uma atitude despretensiosa em relação a certas coisas, que sou despreocupado, tranqüilo. Isso eu assumo! Pô, e passividade não é necessariamente um atributo ruim. Passividade tem a ver com paz, e com receber. Duas coisas que podem ser consideradas boas, não?

Por exemplo, a própria vida. Eu não pedi pra nascer, não me lembro de ter deliberadamente requisitado isso. No entanto ela me foi dada, e a estou aproveitando. Também não nasci pra ir, não quis ir à escola, nem pedi pra fazer inglês, espanhol, etc. Mas fui colocado nisso tudo e recebi conhecimento valioso das mais diversas ciências, legado de tantos outros seres humanos, e ainda posso me comunicar com mais pessoas hoje que não só as que falam português. Enfim...

M.G.: Você alguma vez já usou um guarda-chu...[interrompida]

S.B.: ...Cobram incessantemente que tenhamos atitude pra tudo, que controlemos todas as circunstâncias, que resolvamos todos os problemas.  Com a chuva é a mesma coisa. Não é que eu seja passivo em relação ao problema da chuva. É que eu nem mesmo a considero um problema.

Satisfeito, abandonei a entrevista, e comecei a trabalhar.
 ...

Crédito de imagens: Wikimedia Commons